O Senador Renan Calheiros afirmou ou deu a entender ser igual a um coco.Só cairia dos altos postos que estava ocupando se alguém fosse arranca-lo com as próprias mãos.Na véspera da festa da Padroeira do Brasil, pediu licença por 45 dias da presidência do Senado e do Congresso Nacional e foi para casa.E já foi tarde!
Não foi arrancado.Seu afastamento não se deu pela força e sim por pressões do jogo democrático, as quais tentou de todas as formas desqualificar.Admirável foi a paciência do povo brasileiro.Controversas, para não dizer condenáveis, foram as atitudes de aliados do Governo e da base de apoio “alinhada” nos últimos seis meses.O coco caiu!Peço perdão aos mestres do idioma pela cacofonia.Desmembrando tal palavra e sem preocupações com didatismos, diria que "fonia" no caso diz respeito ao som das palavras.Embora haja ainda muito ruído no ar, mas deixando de lado a componente sonora do vocábulo, resta o caco.O Senado deverá nos próximos meses tentar juntar cacos de coco, de ética e de respeito ao eleitor, eis que esteve a ponto de ruir como instituição.Quanto ao apreço do brasileiro, talvez jamais consiga resgata-lo.
Salvo novas investidas da tropa de choque, sem ironias e com um certo alívio cidadão, parece lícito afirmar-se que o coco ao menos se descolou do caule, isto é, Renan se afastou da cadeira de Presidente do Senado e do Congresso!A sociedade quer crer que para sempre.
Compreensíveis naqueles momentos do tombo foram discursos do tipo “choros livres", nos quais o acusado se disse injustiçado e abusou de palavras como honra, dignidade, ética, interesse público, etc. Mas a verdade é que a grande noz tropical não se desprendeu facilmente do alto coqueiro fincado em Brasília, no qual se agarrou por justos 139 dias, período de tempo em que a casa se perdeu nos carrascais de cinco denúncias e em escaramuças variadas no Conselho de Ética.Muito opróbrio e muita lama emergiram tornando sombrio o cenário político.
Perplexa, a sociedade viu o Senado da República sem condições de produzir e legislar por mais de quatro meses ou, como queiram, deixando de cumprir sua destinação constitucional.Tratou-se de um dos mais deslustrados períodos da história republicana.
Ao tropel do vale tudo das tropas de choque prevaleceram discursos dramáticos, relatórios obsequiosos e artimanhas decorrentes de entulhos regimentais.O descaso para com a capacidade de discernimento do eleitor foi de tal irresponsabilidade que surgiram até sérias e oportunas indagações sobre a própria razão de ser de uma instituição que em pleno terceiro milênio abusou de procedimentos obscuros como, como por exemplo, o voto secreto no plenário, prática abolida na maioria dos parlamentos do mundo livre.Na hora da verdade, o partido do Governo bem como diversos correligionários do acusado lavaram as mãos, viraram os fios, só que o fizeram tardiamente.A propósito, deram até umas torções no indigitado fruto tropical para que caísse mais depressa, pois de outra forma o Senado continuaria paralisado ou patinando no lodaçal de cada dia.
É bem verdade que companheiros e compadres só acordaram para valer quando se evidenciou procedimento insensato e arrogante da liderança do partido, a mando não se sabe de quem, contra críticos de Renan.O início do desfecho se deu com o afastamento dos senadores Simon e Jarbas da CCJ.É verdade que ambos são políticos de grande e ilibado prestígio nas hostes do PMDB, mas tal fato, por si só, não explicaria cabalmente as mudanças de posição de aliados constatadas na segunda semana de Outubro.
Agora o óbvio que não quer calar: aqui para nos, o coco caiu das alturas em que se encontrava nem tanto por obra de faca, porrete, tronco chacoalhado ou o artifício usado pelos catadores de torcer com as mãos o fruto sempre no mesmo sentido até se desprender do trono.O golpe ou o sopro final veio quando mudou de direção e de intensidade o vento um tanto aloprado que sopra desde Brasília até as mais remotas paragens do país.O nome do vento? Foi, é e será CPMF!
Não é necessário ser cientista político para concluir que esta sigla mágica tem tido muitas vezes o poder de um vendaval, capaz até de mudar posturas férreas, derrubar cocos teimosos e desfazer impasses quase pétreos.Com a aprovação, pela Câmara, do prazo de prorrogação do referido imposto insistentemente chamado de "contribuição", a batata quente e urgente foi passada ao Senado que ficou com a palavra, digo a panela, precisando continuar a cocção.A oposição se declarava em obstrução enquanto Renan não se afastasse, assim, selou-se sua sorte...Daqui para frente, com o perdão do grande santo, é muito provável que passe a imperar o lema franciscano "é dando que se recebe", mas que a prorrogação da CPMF vai ser aprovada, lá isso vai!A conferir.
Quanto a Renan, será novamente julgado pelo Conselho de Ética e, caso a denúncia seja aceita, seu caso será submetido à nova apreciação em plenário, muito provavelmente ainda com voto secreto dos pares.Importante é lembrar que se licenciou por 45 dias.Haverá tempo para tudo?
Muita água ainda vai rolar até que este ilustre senhor seja alijado de vez do processo político eleitoral; talvez até renuncie e volte nas próximas eleições.Em sendo assim, teria sido inútil todo o drama vivido pelo Senado e o consequente vexame internacional ao qual o país esteve exposto?A resposta cabe a cada um dos eleitores.Quanto a mim:
Compreendi definitivamente que prerrogativas, imunidades, regimentos internos, certos preceitos da Constituição de 88, as bolsas como instrumento eleitoral e a falta de uma reforma política digna, séria e profunda estão na raiz de todos os males que nos infelicitam;
Percebi que o sistema de representatividade se assenta em equívocos monumentais, aparentemente inamovíveis;
Conclui que estamos caminhando para um impasse sem alternativas, pois os únicos que poderiam mudar o sistema não o fazem, nem o farão jamais sem pressão democrática, pois dele se beneficiam de alguma forma.
Por fim, relaxei e aproveitei o episódio para exercitar conhecimentos do famigerado vício de linguagem, a tal cacofonia, de modo a evita-lo daqui para frente..Ah!Antes que esqueça: enjoei de cocada.