Não resta dúvidas, o Brasil continua sendo o país do futebol e do Carnaval.Só não se sabe até quando.O diabo é o noticiário no meio das ruas, o redemoinho da realidade infelicitando multidões.
Enquanto a tragédia do dia a dia não acontece com nossos familiares, nossos amigos, tudo bem.Mas quando a verdade chega próxima a nós, com seus desdobramentos perversos, a coisa muda de figura.Esta semana, um relatório da ONU alardeou o que todos já sabemos, mas insistimos em negar: Não existe nenhum país do mundo em que a sensação de insegurança seja maior do que no Brasil.
Pensou-se, após a constituição de 88 e do festival de democracia, com sucessivos recordes de votos, que todos os males antigos haviam sido varridos da colorida e antes festiva pátria amada.Na verdade foram, mas para debaixo de muitos tapetes e consciências.
A classe política, de maneira geral, se divide em duas categorias.Meu velho pai dizia que eram os que mamavam e os que queriam mamar.Hoje, são os que pensam que não têm o rabo preso e já se movimentam para as próximas eleições e os que têm o dito cujo grampeado.A verdade é que a maioria, em todos os níveis, está as voltas com advogados, conselhos de ética, ministério público, STF, PF, etc, não se incomodando em paralisar o Estado e outras instituições como o Senado para livrar a própria cara.
Ora, quem não gostaria de viver em um eterno Carnaval ou continuadas festas?O questionamento se faz em vão, pois isto só seria possível se legiões de demônios da quarta feira não estivessem por ai perambulando e mostrando garras a cada dia. Poderia alentar este artigo com as dimensões de um compêndio se fosse relatar os graves problemas que rondam nosso futuro, mais que o passado e o presente.
Triste e grave é constatar que em muitos lugares o carnaval poderá ser sombrio.Que os responsáveis sejam ao menos sensatos para que não seja trágico.
Lamentavelmente, se debates ocorrem no país, existem apenas na imprensa e não se dão no desaguadouro natural, o Congresso.As "casas" estão ou estiveram enredadas em mensalões, sanguessugas, dossiês e incontrolável corrupção.Em contrapartida, nestes dias cruéis têm voz e presença cada vez mais fortes grupos internacionais e organizações não governamentais, muitas interessadas apenas em se locupletarem no banquete amazônico.Uma CPI está em vias de ser instaurada, tantos são os indícios que se adensam negativa e até criminalmente a respeito do assunto.
Neste sorvedouro de vaidades, omissões, conveniências, conivências e ambições desmedidas, não é lícito silenciar ao menos quanto a um caso.Roraima é exemplo emblemático e prenuncia talvez sangue no chope do país do Carnaval.Trata-se de drama absurdo, inadmissível se cogitado sob o ponto de vista social e causador de inquietude se analisado em termos de estratégias nacionais.
Tudo começou com uma reserva para os índios da etnia Ianomâmi, defendida inicialmente pela igreja católica e por intelectuais distanciados da realidade vivida naquela cobiçada pérola da Federação, riquíssima em terras cultiváveis e recursos minerais.Depois a coisa foi crescendo internacionalmente, arrolando organizações poderosas incrustadas na Amazônia e grupos de pressão.O debate no Congresso deixou muito a desejar,pois estava enfraquecido pela sucessão de escândalos.
Consumados os trâmites, enquanto outra reserva era cogitada, já não queriam ver as duas separadas.Pressões internas e de toda ordem foram desencadeadas para que fossem contínuas.E conseguiram! O fato, como já foi dito, se deu concomitantemente com o desfecho de uma legislatura do Congresso voltada para o próprio umbigo, alheia aos anseios do país, atolada no próprio lamaçal que engendrara.E pasmem, no STF lograram alcançar nova vitória, pois a Suprema Corte não poderia se contrapor ao Poder Legislativo neste caso específico.Sem entrar no mérito, considerável extensão do Estado de Roraima, perigosamente próxima à fronteira do Brasil com a Venezuela, foi transformada em reserva.Acresce o fato de que a região é despovoada e nas reservas ninguém entra, a não ser membros de certas ONG e a Funai.
Só não explicaram aos contribuintes, à consciência nacional e aos eleitores em geral que naquelas vastas reservas criadas de modo quase artificial na fase de estudos, ouvidos antropólogos em gabinetes refrigerados de Brasília, moravam outros brasileiros ditos não índios puros.A miscigenação ancestral, a mesma que possibilitou nossa maneira de ser, quem sabe até o Carnaval nas suas mais remotas origens, foi letra morta para os dignitários do legislativo.Embora sem unanimidade, nossos representantes ignoraram a evidência gritante, a verdade:que estes brasileiros são também índios, só que de outras etnias.
Hoje a nação tem uma espada sobre a cabeça, pois é preciso tirar milhares de brasileiros das terras que ocupam e nas quais plantam grãos indispensáveis em um Estado muito distante dos grandes centros produtores mais ao sul. Esta gente vem fazendo isto de longa data, com ordem, sem a agressividade de certos movimentos revoltosos.Não se diga que o interesse é apenas de empresários.Resta saber quem, que força, que poder vai expulsa-los de lá?
Seja nas grandes cidades, purgatórios nos quais a população se debate em paroxismos terminais em face da violência, seja nas vastidões lá do extremo norte amazônico, onde a gente simples luta pelo pão, alguma alegria é indispensável à sobrevivência.O povo, em qualquer lugar do país, preza uma boa folia.As festas tradicionais, de cunho regional, bem como o carnaval, são eventos esperados, até com ansiedade.Afinal, ninguém é de ferro, nem Governo, Congresso, Justiça e muito menos o cidadão comum.Mas nestas amargas circunstâncias, as esperanças desfalecem...
Em Roraima, sobretudo, a situação reveste-se de gravidade, mas se Deus for brasileiro, não há de permitir que cidadãos desprotegidos sejam retirados a força dos campos nos quais produzem para sobreviver.Parece até ironia, se a situação não prenunciasse tragédias: por imposições da concentração de grandes efetivos policiais indispensáveis à operação e também em decorrência da alentada logística que se faz necessária, o desfecho poderá ocorrer daqui uns quatro ou cinco meses, mais ou menos no período carnavalesco, ainda convenientemente distanciado das eleições.
Mas se assim for e se até Deus já estiver cansado de tanta insensatez, espera-se que o espírito de tolerância prevaleça.Resta almejar que o carnaval das alegrias e risos de antes não seja tingido pelas cores do sangue dos justos e inocentes brasileiros que plantam arroz para sobrevive
Quanto à violência e à insegurança grassando de norte a sul, estas não parecem ter jeito.E tudo deverá ficar na mesma, pois não são malefícios a serem afastados somente com discursos e palanques.Demandam dignidade, responsabilidade e muita força moral.Um novo Messias, talvez.
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