segunda-feira, 19 de novembro de 2007

DO PETRÓLEO E DO SAL


Não sou especialista no assunto "sal” e muito menos na temática do petróleo.Quanto ao primeiro, o cloreto de sódio, sei apenas que foi causa de guerras antigas, sendo indispensável na comida e na vida.Sem ele, a existência outra coisa não seria senão insossa (obviedade à parte).Do petróleo, ouço dizer que é um bem não renovável, sempre embutido nos grandes conflitos do século XX.Por décadas tem sido a razão ou compulsão das potências em suas projeções de poder.Motor vital das economias, para o bem ou para o mal, está presente em todos os momentos da trajetória de qualquer ser.
Na verdade, nem estudioso diletante sou de ambas as problemáticas.Do sal devo abster-me, por ordens do doutor, mas não consigo.Do ouro negro, sei que o preço internacional do barril bate na casa dos cem dólares e é uma das principais causas do males que afetam o meio ambiente em todo o planeta.De moto próprio decidi abolir o carro do rol de meus sonhos de consumo.De outros subprodutos, como o gás de cozinha e bens da indústria petroquímica, talvez não possa prescindir, a não ser que vá viver em cavernas, na condição existencial de troglodita, do lado oeste do Itatiaia.Porque lado oeste? Em razão da proximidade de uma siderúrgica a ser construída quase no sopé da montanha, na vertente oposta.Mas esta é outra história.
Com tudo isto, a imodéstia obriga-me a acrescentar algumas observações fundamentadas precariamente nos preceitos do “achismo".Achar isto ou aquilo a respeito de qualquer tema ganha foros de verdadeira característica sociológica dominante em certa parcela da sociedade brasileira na qual me incluo: do alfinete ao foguete, do futebol ao rockandroll, da genética à cibernética, da planilha à bolsa família, enfim, das perversões até às eleições, nem que seja só para rimar, nos botequins, nas ruas, qualquer que pratique a “achologia” (axiologia ou besteirol?) pode e deve opinar sobre qualquer assunto, ainda que o desconheça.Faço-o agora.
Todo este preambulo foi necessário só para comentar as consequências políticas da descoberta de profusões de petróleo no campo Tupi, na bacia de Santos.São oito bilhões de barris, segundo otimistas porta-vozes governamentais.Tal reserva está a sete mil metros abaixo da superfície, mas este fato, isoladamente, não preocupa, eis que o Brasil é pioneiro na exploração em grandes profundidades da plataforma continental.O imenso problema não está no piso abissal do mar, nem sequer na taluda camada de rocha, com mais de dois mil metros, mas, pasmem, no SAL, este também com uma faixa de mais de dois quilômetros na vertical!
É esta cobertura salina que acarretará aumentos significativos de custos, antes que o petróleo possa chegar às refinarias para processamento.Mas isto não é tudo: novas tecnologias deverão ser pensadas e desenvolvidas.Isto demandará tempo e dinheiro.A palavra de ordem é vencer o sal até chegar a um óleo fino, de qualidade superior, sem enxofre, de maior preço nos mercados.
O prestigioso Centro de Estudos do COPPE, da UFRJ, parceiro da Petrobrás há trinta anos, tem sido ouvido nos últimos dias pela mídia sobre as tremendas dificuldades para extrair aquele óleo.ACHO, com modéstia, que deveria ter tido a primeira palavra, antes da pirotecnia do anúncio oficial.
O sal, nas altas temperaturas existentes nas entranhas da terra, transforma-se em lama gelatinosa que sempre se fecha quando retirada uma sonda, diferentemente do que ocorre com a rocha.
Ouvir um cientista do COPPE adentrando o campo é ver um Ricardinho levantando, nem tanto bolas numa partida de vôlei, mas dificuldades que deverão ser vencidas nos próximos anos.Não obstante, sempre deixam uma mensagem final de otimismo e de capacidade de encontrar soluções para este e inúmeros outros problemas, previsíveis ou não, no caminho do petróleo até gerar riquezas para o Brasil.Continuo ACHANDO que deveria ter sido acionado antes da festa televisiva.
O fato novo foi o petróleo fino abaixo da camada de sal na área Tupi, que não pertence unicamente ao Brasil(temos dois sócios nesta empreitada) e que trará imensos óbices para a exploração. Então porque aquele anúncio retumbante de uma reserva conhecida há mais de dois anos cujos resultados somente serão visíveis em 2015?ACHO que foi por motivos político-eleitorais, em favor de pessoas que ambicionam o poder.Desnecessário seria declinar nomes.
A verdade é que foi gerada uma expectativa formidável, tanto que o Presidente já pensou marotamente na OPEP e afirmou ter sido apelidado de xeque por seu pares no exterior.Par e passo, as ações da Petrobrás subiram cerca de 12% em um único dia, para caírem depois, face o magro balanço com perdas de lucros em relação a 2006.
Vê-se, assim, que o problema não é somente o sal.Rimando, parece ser também eleitoral.Se formos realmente os campeões da democracia, devemos apurar quem ganha e que perde nestes casos, ainda mais se pensarmos que Tupi pode ser apenas uma parcela de campos que se estendem desde o litoral de Santa Catarina até o Espírito Santo.Providencialmente foram suspensas novas concessões e parcerias nas regiões mais promissoras.
Pode parecer óbvio, mas o sangue negro da mãe terra não deve ter dono.Como a Amazônia, não pertence a este ou aquele partido no poder, a este ou aquele regime, a este ou aquele grupo de acionistas, a esta ou àquela corporação.É propriedade inalienável do povo brasileiro.Assim, ACHO que devamos todos, cidadãos de sempre, vigiarmos muito alem de nossos olhares, empenhando nossos corações na questão, como fizemos na campanha do "Petróleo é Nosso" e em tantos outros episódios da história . E você, o que ACHA?



sábado, 3 de novembro de 2007

GUERRA DE PAPEL

Certos assuntos que respondem aos altos interesses nacionais não poderiam ser tratados como vem sendo nestes últimos anos.Não é lícito deixa-los a mercê de apetites partidários quase sempre pouco éticos postulando nomeações políticas para cargos em empresas estatais estratégicas, agências de controle eminentemente técnicas e ministérios responsáveis pelas políticas do Brasil.Não podem ficar ao Deus-dará, sendo levados com a barriga, o descaso e a incompetência.Não devem, acima de tudo, mesclar-se com o viés ideológico aqui renitente, mas em desuso no mundo desenvolvido.
Muitos temas de vital importância estão sendo conduzidos assim, enquanto a sociedade por inteiro volta as atenções para ameaças mais visíveis, como a violência campeando incontrolável de norte a sul, a corrupção triunfando imbatível e os escândalos envolvendo alternadamente os mais importantes setores da representatividade política do país.
Mas o cidadão deve ter em mente que isto não é tudo.Concomitantemente outros fatos tão adversos estão acontecendo.Pouquíssimos brasileiros se dão conta, só para citar um caso, do que se passa em Roraima.Lá está na iminência de ser implantada a reserva indígena contínua Raposa Serra do Sol configurando uma situação potencialmente explosiva e sem precedentes na história, eis que ocorre em área de fronteira, próxima a outras consideradas de litígio entre países e riquíssima em minerais estratégicos.Afora a limitação de soberania em parte do território nacional, fica anunciada uma tragédia que os brasileiros não desejam: os índios “não puros” e suas famílias, vivendo tradicionalmente da agricultura, deverão ser retirados da ampla área designada para a reserva que somada a outras já existentes configura vastidão que abrange mais da metade do território daquele estado da federação.O mais grave neste episódio é que parecem estar esgotadas as alternativas judiciais em todas as instâncias para minimizar o problema ou resolve-lo sem traumas e fissuras democráticas.Fala-se no acionamento, pela FUNAI, da Polícia Federal para retirar os brasileiros miscigenados da região.
Em Brasília há semanas só se falava na CPMF enquanto estavam em gestação muitos outros impasses com possibilidades de anuviar ainda mais o cenário.Agora o gás combustível é ao mesmo tempo a bola da vez e é ele próprio que se infla, como é de sua natureza.O balão está preste a estourar e só não percebe quem não quer.Este e mais um capítulo da novela que evidencia a absoluta falta de visão estratégica dos nossos dirigentes, no atacado, e imprevidência explicita, no varejo.
Antes, como consequência do apagão-mãe, aquele da era FHC, estrategistas de plantão voltaram suas vistas açodadamente para as termoelétricas.Foram consumidos consideráveis recursos, mas as plantas entraram em compasso de espera quando as chuvas caíram.Pouco tempo depois muito indústrias brasileiras foram aconselhada pelo próprio governo a adaptarem suas instalações para o uso de gás.
A chegada de Evo Morales ao poder na Bolívia, saudada pelos companheiros socialistas e simpatizante daqui apesar de suas truculências iniciais, pôs fim a era do gás barato.A nova política para o precioso insumo importado a custos baixíssimos passou, ou deveria passar a ser quase que um alerta de "tsunami" para planejadores, presidentes e diretores de estatais, dirigentes de agências reguladoras, ministros, correligionários e altos escalões governamentais. Esta gente jamais poderá dizer que de nada sabia.
Com as recentes previsões pessimistas de captação de água nos reservatórios das hidrelétricas, voltam a cena as termoelétricas, só que agora o preço do petróleo se aproxima inexoravelmente dos cem dólares.Que fazer?Ora, desestimular o consumo de gás veicular, renegociar contratos, diminuir o volume de gás utilizado na indústria e direcionar o que for possível para a geração de energia elétrica.Tal escolha de Sofia desencadeou (sem intenções de fazer piada) alem do aumento de preços do GNV, uma verdadeira guerra intestina de papel entre os agentes envolvidos.
Nestes dias, a consciência nacional parece assentar-se no noticiário televisivo e nas páginas das revistas. Como bons burocratas que são, os senhores anteriormente citados e outros inundam agora as telas da televisão com cópias de memorandos e de ofícios do tipo “não me comprometa”.O primeiro a alertar para as duras consequências da falta de gás na confusa matriz energética adotada foi o Diretor de Gás e Energia da Petrobrás, seguido do Presidente da estatal, este último encarregado, sabe-se lá porque, de decidir os critérios de distribuição interna entre os maiores consumidores.
Sucederam-se, na batalha silenciosa de expedientes administrativos, outras ponderações e considerações mais ou menos contundentes entre as partes, sendo interessante ressaltar que o ex-Ministro das Minas e Energia afirmou não serem aceitáveis mudanças no modelo naquele momento em que o Governo tentava acelerar o crescimento econômico do país.Por falar em crescimento, esta é outra questão nacional que não tem sido considerada com a importância que merece.O plano proposto (PAC) visualiza(muito aquém das reais necessidades), mas não provê recursos.Contorna, não enfrenta os problemas referentes à geração de mais energia e trata por alto outros aspectos da infraestrutura como portos, aeroportos, rodovias, ferrovias, logística em geral.
Num entreato desta verdadeira comédia de equívocos, eis que Néstor Kirschner, enfrentando ameaça de apagão na Argentina e de olho na eleição da esposa, veio a Brasília e convenceu seu parceiro do palácio do planalto a abrir mão de parte da quota de importação de gás boliviano que o Brasil tinha direito por contrato, em favor “de los hermanos”.Perguntar não ofende: seria a mesma quantidade que vai faltar para a industria do Rio e de São Paulo?
Os que investiram em adaptações nos seus veículos para economizar, incentivados mais uma vez pelo governo, já estão arcando com aumentos no GNV superiores aos da inflação.Mas, neste quadro sombrio de morde-assopra e de salve-se quem puder, as donas de casa e os beneficiários de subsídios não precisam se apavorar, por enquanto, pois não haverá falta de gás de cozinha nem parecem estar previstos aumentos de preços.Afinal isto mexe com bolsos, estômagos e milhões de votos.
Delineiam-se como bodes expiatórios, salvo reviravolta pouco provável, os consumidores industriais.Estes deverão reinvestir, contabilizar prejuízos, reformular estruturas, mudar procedimentos, treinar pessoal, etc. Restam algumas dúvidas: poderão fazê-lo sem amargar falências e sem repassar custos para os consumidores internos e internacionais, com significativas perdas de mercado?Com a palavra o PT e a base aliada do Governo que têm um bom motivo para deixarem de se preocupar com biografias pessoais e a sucessão presidencial, passando a pensar o futuro do Brasil.
Quanto à falta de planejamento, o mal já está feito.Melhor seria reconhecer a culpa da imprevidência, investir maciçamente no gás da bacia de Santos, financiar as empresas com juros baixos e pensar nas próximas décadas, tudo isto passando longe, muito longe de Hugos, Evos, Néstors e digníssima consorte.

quinta-feira, 1 de novembro de 2007

O GERÚNDIO

Bem fez o jornalista André Petry, na última edição da Revista Veja, em espinafrar o “gerundismo” desenfreado que assola o país, tendo o cuidado de deixar claro que nem todo gerúndio é execrável.A prova mais convincente é a citação do verso imortal de Camões: “Cantando espalharei por toda parte...”.
Para reforçar a idéia de que os antigos lusos escreviam o gerúndio como o conhecemos e praticamos, em vez do infinitivo gerundivo adotado pelas novas gerações, lança a pergunta: Camões não grafou “A cantar espalharei por toda parte...”.Porque?
Cabe aqui, modestamente, aceitando sem contestação a resposta apresentada, acrescentar que a epopéia “Os Lusíadas” foi inteiramente escrita em decassílabos perfeitos, fato que exalta ainda mais a genialidade do grande vate.Caso tivesse adotado a segunda opção, ver-se-ia, entre milhares de versos, um único com onze sílabas!
José Alberto Somavilla