sábado, 3 de novembro de 2007

GUERRA DE PAPEL

Certos assuntos que respondem aos altos interesses nacionais não poderiam ser tratados como vem sendo nestes últimos anos.Não é lícito deixa-los a mercê de apetites partidários quase sempre pouco éticos postulando nomeações políticas para cargos em empresas estatais estratégicas, agências de controle eminentemente técnicas e ministérios responsáveis pelas políticas do Brasil.Não podem ficar ao Deus-dará, sendo levados com a barriga, o descaso e a incompetência.Não devem, acima de tudo, mesclar-se com o viés ideológico aqui renitente, mas em desuso no mundo desenvolvido.
Muitos temas de vital importância estão sendo conduzidos assim, enquanto a sociedade por inteiro volta as atenções para ameaças mais visíveis, como a violência campeando incontrolável de norte a sul, a corrupção triunfando imbatível e os escândalos envolvendo alternadamente os mais importantes setores da representatividade política do país.
Mas o cidadão deve ter em mente que isto não é tudo.Concomitantemente outros fatos tão adversos estão acontecendo.Pouquíssimos brasileiros se dão conta, só para citar um caso, do que se passa em Roraima.Lá está na iminência de ser implantada a reserva indígena contínua Raposa Serra do Sol configurando uma situação potencialmente explosiva e sem precedentes na história, eis que ocorre em área de fronteira, próxima a outras consideradas de litígio entre países e riquíssima em minerais estratégicos.Afora a limitação de soberania em parte do território nacional, fica anunciada uma tragédia que os brasileiros não desejam: os índios “não puros” e suas famílias, vivendo tradicionalmente da agricultura, deverão ser retirados da ampla área designada para a reserva que somada a outras já existentes configura vastidão que abrange mais da metade do território daquele estado da federação.O mais grave neste episódio é que parecem estar esgotadas as alternativas judiciais em todas as instâncias para minimizar o problema ou resolve-lo sem traumas e fissuras democráticas.Fala-se no acionamento, pela FUNAI, da Polícia Federal para retirar os brasileiros miscigenados da região.
Em Brasília há semanas só se falava na CPMF enquanto estavam em gestação muitos outros impasses com possibilidades de anuviar ainda mais o cenário.Agora o gás combustível é ao mesmo tempo a bola da vez e é ele próprio que se infla, como é de sua natureza.O balão está preste a estourar e só não percebe quem não quer.Este e mais um capítulo da novela que evidencia a absoluta falta de visão estratégica dos nossos dirigentes, no atacado, e imprevidência explicita, no varejo.
Antes, como consequência do apagão-mãe, aquele da era FHC, estrategistas de plantão voltaram suas vistas açodadamente para as termoelétricas.Foram consumidos consideráveis recursos, mas as plantas entraram em compasso de espera quando as chuvas caíram.Pouco tempo depois muito indústrias brasileiras foram aconselhada pelo próprio governo a adaptarem suas instalações para o uso de gás.
A chegada de Evo Morales ao poder na Bolívia, saudada pelos companheiros socialistas e simpatizante daqui apesar de suas truculências iniciais, pôs fim a era do gás barato.A nova política para o precioso insumo importado a custos baixíssimos passou, ou deveria passar a ser quase que um alerta de "tsunami" para planejadores, presidentes e diretores de estatais, dirigentes de agências reguladoras, ministros, correligionários e altos escalões governamentais. Esta gente jamais poderá dizer que de nada sabia.
Com as recentes previsões pessimistas de captação de água nos reservatórios das hidrelétricas, voltam a cena as termoelétricas, só que agora o preço do petróleo se aproxima inexoravelmente dos cem dólares.Que fazer?Ora, desestimular o consumo de gás veicular, renegociar contratos, diminuir o volume de gás utilizado na indústria e direcionar o que for possível para a geração de energia elétrica.Tal escolha de Sofia desencadeou (sem intenções de fazer piada) alem do aumento de preços do GNV, uma verdadeira guerra intestina de papel entre os agentes envolvidos.
Nestes dias, a consciência nacional parece assentar-se no noticiário televisivo e nas páginas das revistas. Como bons burocratas que são, os senhores anteriormente citados e outros inundam agora as telas da televisão com cópias de memorandos e de ofícios do tipo “não me comprometa”.O primeiro a alertar para as duras consequências da falta de gás na confusa matriz energética adotada foi o Diretor de Gás e Energia da Petrobrás, seguido do Presidente da estatal, este último encarregado, sabe-se lá porque, de decidir os critérios de distribuição interna entre os maiores consumidores.
Sucederam-se, na batalha silenciosa de expedientes administrativos, outras ponderações e considerações mais ou menos contundentes entre as partes, sendo interessante ressaltar que o ex-Ministro das Minas e Energia afirmou não serem aceitáveis mudanças no modelo naquele momento em que o Governo tentava acelerar o crescimento econômico do país.Por falar em crescimento, esta é outra questão nacional que não tem sido considerada com a importância que merece.O plano proposto (PAC) visualiza(muito aquém das reais necessidades), mas não provê recursos.Contorna, não enfrenta os problemas referentes à geração de mais energia e trata por alto outros aspectos da infraestrutura como portos, aeroportos, rodovias, ferrovias, logística em geral.
Num entreato desta verdadeira comédia de equívocos, eis que Néstor Kirschner, enfrentando ameaça de apagão na Argentina e de olho na eleição da esposa, veio a Brasília e convenceu seu parceiro do palácio do planalto a abrir mão de parte da quota de importação de gás boliviano que o Brasil tinha direito por contrato, em favor “de los hermanos”.Perguntar não ofende: seria a mesma quantidade que vai faltar para a industria do Rio e de São Paulo?
Os que investiram em adaptações nos seus veículos para economizar, incentivados mais uma vez pelo governo, já estão arcando com aumentos no GNV superiores aos da inflação.Mas, neste quadro sombrio de morde-assopra e de salve-se quem puder, as donas de casa e os beneficiários de subsídios não precisam se apavorar, por enquanto, pois não haverá falta de gás de cozinha nem parecem estar previstos aumentos de preços.Afinal isto mexe com bolsos, estômagos e milhões de votos.
Delineiam-se como bodes expiatórios, salvo reviravolta pouco provável, os consumidores industriais.Estes deverão reinvestir, contabilizar prejuízos, reformular estruturas, mudar procedimentos, treinar pessoal, etc. Restam algumas dúvidas: poderão fazê-lo sem amargar falências e sem repassar custos para os consumidores internos e internacionais, com significativas perdas de mercado?Com a palavra o PT e a base aliada do Governo que têm um bom motivo para deixarem de se preocupar com biografias pessoais e a sucessão presidencial, passando a pensar o futuro do Brasil.
Quanto à falta de planejamento, o mal já está feito.Melhor seria reconhecer a culpa da imprevidência, investir maciçamente no gás da bacia de Santos, financiar as empresas com juros baixos e pensar nas próximas décadas, tudo isto passando longe, muito longe de Hugos, Evos, Néstors e digníssima consorte.

Nenhum comentário: