segunda-feira, 28 de janeiro de 2008

BASTIDORES E CÚPULAS

A sociedade é levada a crer que os assuntos realmente importantes para o Governo são estes que se repetem diariamente na mídia.Pura e ingênua ilusão.Muitos agentes e prepostos do poder estão usando e abusando, no exercício de altos cargos, seus cartões corporativos como se fossem a cada mes um outro salario.Mais que isto, só conseguem pensar em eleições e na política do da cá, toma lá.Estão se lixando para gritas ocasionais...
Quando a imprensa fala de uma alta funcionária que desvirtua o uso dos referidos cartões, alguém lá de cima, nos altos escalões, competente nas artes da dissimulação, encontra rapidamente um derivativo que sempre se transforma em antídoto de primeira linha para críticas, ou serve como engodo para observadores desavisados:algo como o acionamento de dispositivos contemporizadores, aquele velho "vamos apurar até as últimas consequências, doa a quem doer, etc e tal".E não move uma palha , eis que quase todos os detentores do plástico dourado pago pelo contribuinte fazem o mesmo uso pouco ético da benesse.O despacho funcional repetitivo que deveria atender o reclamo da cidadania é qualquer coisa parecida como, ninguem sabe nada, ningúem viu nada, tudo recheado com declarações pomposas, carimbos e ofícios.
Agora se sabe que o cartão dourado foi largamente utilizado também como isca nos anzois para pescarias memoráveis de um órgão que nunca disse a que veio... E quando a imprensa largar os ossos, os fatos destituídos de ética, suspeitos ou delituosos vão desaguar em órgãos e tribunais quase sempre carentes de pessoal, meios ou poderes concretos para para investigar e entregar os eventuais infratores à justiça.
Nesta mesma senda tortuosa, quando se alardeia o uso de recursos públicos para beneficiar as ONG ligadas a políticos deste ou daquele partido, os aspones diligentemente sopram nos ouvidos dos chefes assentados nos píncaros da republica:aos costumes, silêncio,não engrossar o caldo, logo a imprensa esquece, vem ai eleição.A CPI, ora, a CPI...
Quando um tribunal, que seja o de contas, cria normas para disciplinar o repasse de recursos públicos às incontáveis ONG que proliferam e prosperam sem quaisquer controles, muitas vezes até sem endereços conhecidos, dinheiro este originário dos bolsos esfarrapados de exauridos contribuintes sem vez e sem voz no processo, o sujeito que tem a chave do cofre ou o oráculo do planejamento dizem que não houve tempo útil para aplicar as normas do órgão regulador.E, não mais que de repente, aumenta de 2 para 2,8 bilhões o repasse sabe-se la para quê ou para quem.Repasse é a designação eufemística do meu, do nosso parco dinheiro.
Enquanto isto, nos bastidores das estatais e empresas de serviços, nos segundos e terceiros escalões que deveriam ser essencialmente técnicos, travam-se outras lutas por cargos, influencia, prestigio, poder político, etc.Muitos dirão que isto sempre ocorreu e é fato natural, embora as eleições ainda estejam relativamente distantes no tempo, não nos apetites.E a coisa vai da valsa, nada de novo sob o sol, a sociedade tentando sobrevir nos limites da desesperança, amedrontada, engolindo como sempre pílulas sulfurosas e ingerindo sapos , cobras e lagartos.
A questão maior é saber até quando.Ora, se a fachada visível do governo, os ministérios, devem ou não ter, conforme o momento, conotações ideológicas, corporativas, franciscanas no pior sentido ou se o executivo precisa contemplar aliados insaciáveis que ainda ontem estavam na oposição e que agora adentram a nau chamada base aliada, estes fatos pouco interessam ao cidadão comum e muito menos àqueles que se beneficiam de bolsas ou do precário serviço de alguma ONG, indubitavelmente os mais produtivos instrumentos eleitorais até hoje postos em prática aqui.
Mas, o próximo grande passo histórico se dará quando o eleitor brasileiro, em todo o processo eleitoral, raciocinar como um consumidor em busca de melhores serviços, melhor qualidade de vida, conscientizando-se que votou em busca de dignidade, resultados, mudanças, perspectivas melhores para seus descendentes.Tendo real discernimento para escolher e exigir, para e passo compreenderá que também tem deveres. Então a moenda gira em sentido contrário.
Por ora, parece até, em um enfoque superficial, que não indignam a maioria dos eleitores problemas como a falta de segurança, a violência, a precariedade do atendimento de saúde, visivel nas triagens dos hospitais da rede pública, a inexistência de esgotos nas periferias, o analfabetismo dos mais velhos e a deficiência de escolas para os filhos, as doenças erradicadas voltando celeremente e ceifando vidas, os preços proibitivos do feijão, da carne e outros alimentos de primeira necessidade, as prateleiras vazias de remédios de uso contínuo...
Por enquanto é melhor para o país que assim continuem estes cinquenta milhões que se mostram comportados e não pensam em retaliações, luta armada, clandestinidades, enfim, chutar o balde.Ao Brasil, às famílias, aos jovens, às nossas crianças, às nossas esperanças de melhores dias não interessam alternativas extremistas e radicais para resolver impasses.Um dia todos comprenderemos que o voto é o único caminho para a redenção e saberemos usa-lo com com sabedoria.
Enquanto isto, a elite, a cúpula, faz por não merecer tal passividade.Em um exercício de inconsequências transfere os arranca-rabos de seus gabinetes para baixo, para as empresas estratégicas que mexem com o petróleo, o gás, a energia elétrica, querendo transforma-las em balcões políticos de troca de favores ou trincheiras de escaramuças entre os partidos políticos.
Lamentavelmente isto não é tudo.No campo minado da saúde, a palavra de ordem resume-se no alerta para o perigo da dupla vacinação contra a febre amarela.É verdade que as pessoas com deficiências imunológicas podem sofrer sérias consequências com tal prática, mas isto, por si só, não justificaria o empenho de todos os escalões, a começar pelo primeiro, em pautar a grande mídia somente com este problema.Seria uma finta para desviar a atenção quanto a possível falta de vacinas para as pessoas que pretendem viajar para as áreas de risco?A propósito:somente serão vacinados os que tenham as passagens em mãos?E os dez dias?Quais os critérios?
Felizmente deu uma refrescada no verão infernal e mesmo se não fosse por isto, a verdade é que não haveria, por enquanto, razão para se temer uma epidemia urbana da febre, mas, para qualquer lado que se olhe,parecem estes senhores estar brincado com a verdade.
Em respeito a cidadania, a farra dos cartões precisa ser contida.Apesar da dengue , da tuberculose e das pungentes filas nos hospitais, ainda que exorcisando o fantasma amarílico, desnecessário seria explicitar o que poderia acontecer na cabeça do proverbialmente pacífico povão se ocorresse outro apagão decorrente da falta de chuvas, se o transporte subvencionado se tornasse caótico pelo preços dos combustíveis, se não acendessem nos fornos das empresas, nas termoelétricas ou nos lares as chamas do gás para gerar empregos, manter a vida em seu curso normal ou tornar mais palatáveis tantos e tão recorrentes ossos duros de roer, enfim, se faltasse o alimento, a televisão, a novela, a notícia...Se a festa emblemática às avessas dos cartões corporativos continuar impune, logo alguém la de cima vai mandar o povo comer brioches.Aí pode ser que a história se repita.

Um comentário:

CÉLIA BORGES disse...

Caro Somavilla
Fico feliz de encontrar alguém como você, que se mobiliza, que escreve, que protesta, nesse nosso universo de gente omissa e acomodada. Eu procuro fazer o mesmo, e frequentemente me sinto falando sozinha. Falta educação, falta cultura, falta discernimento. Também falta uma justiça confiável...a que está aí não cumpre seu papel e torna possíveis todas essas barbaridades. Grande abraço, Célia