segunda-feira, 3 de março de 2008

MEU NETO



Sempre imaginei que quando nascesse meu primeiro neto me visse obrigado a produzir obra de grande envergadura, monumental, diferente das amenidades que espalho ou de ocasionais polêmicas com desafetos ácidos que transitam dia e noite nesta ilusória comunidade virtual da qual participo com orgulho.
Nascido em um lar típico da classe média, o João Pedro completa uma semana.Recebo fotografias, muitas fotografias...Vejo-me incapaz de dizer mais do que a seguir se vê.Observo seu semblante, seu tipo, sua condição social... Observo-o demoradamente com atenção e emoção.Nos próximos dias quero toca-lo, quero abraça-lo com carinho no instante de vida em que os últimos remanescentes antigos de minha família desaparecem um após o outro.
Fixo-me em sua tez:é branco, apesar de sua avó materna mostrar traços inequívocos do sangue indígena que alicerçou um dos pilares de nossa nacionalidade.Seus ascendentes paternos remontam aos portugueses que vieram inventar o Brasil, talvez aos árabes que um dia dominaram a península ibérica, enfim toda esta gente que soube olhar muito alem dos horizontes imediatos, no espaço e no tempo, abrigando sentimentos e aspirações grandiosas como a saga de buscar o levante pelo poente.Mas tudo isto parece ser letra morta nos dias que correm.
No que me concerne, digo que o menino ascendeu, em relação a mim, um degrau na escala de mobilidade social.O mesmo fizera eu, quanto ao meu pobre pai, operário italiano que veio para o Brasil após a primeira guerra mundial.Minha tradição familiar remonta aos ‘Bergamaschi’, quanto ao linguajar, mas viveram meus antepassados no extremo norte da Itália.
A propósito, diria que a belíssima musica “Claire de lune”, de Debussy, é parte da imortal Suite Bergamaschi deste genial compositor francês que tanto inspirou Tom Jobim e outros músicos brasileiros.Posso fazer tais digressões, pois falo de minorias que jamais tiveram qualquer importância política nem lá, nem aqui, ou de constatações históricas mais do que óbvias.Longe de minhas intenções querer praticar nas entrelinhas quaisquer resquícios de racismos.Mas o menino é branco.Inelutavelmente branco e classe média.
Quer isto dizer, ou trazer a tona, uma preocupação.Parafraseando, não sei se devidamente, um desabafo do eminente jurista Ives Granda Martins em artigo recente publicado na imprensa, parece que os governantes e os legisladores, de uns tempos para cá, esqueceram os brancos, que são tratados desigualmente pelo simples fato de serem brancos.Acrescentaria apenas que esqueceram também a classe média, obrigada tão somente a pagar substancial parcela da conta no saco sem fundos onde se escondem o bem e o mal, mais o segundo que o primeiro.
Vá lá, João Pedro, vá estudar, produzir e pagar impostos.Saiba meu querido neto: ainda que participando de lutas políticas justas em prol da humanidade, jamais receberá estas indenizações pagas hoje a sectarios de uma ideologia em desuso no mundo, onus absurdo que recai brutalmente sobre o contribuinte brasileiro.
Você nunca será partícipe de quinhões do território repartidos entre poucos, sob inspiração e controle de ONG internacionais com sedes em países ricos da Europa e da América do Norte.
Você ficará de fora dessas bolsas que proliferam e de todas as benesses eleitorais.Você não será convidado para o botim dos cartões corporativos, mensalões, espetáculos de crescimento, o biodisel, o gás, as reservas de petróleo do pré-sal, o álcool, a farra do poder. Mas vai pagar a conta.Não tenha qualquer duvida...
Ah!Acabo de vislumbrar uns traços de indignação em seu semblante dorminhoco...

1 comentários:

Otavia Paiva Sommavilla disse...

E ele é a sua cara!!!
Beijos