Ontem havia uma prainha aqui, uma nesga do passado
Mirando lendas ancestrais de Vila Velha.Um sigelo mar
Possível, crível, uma enseada mulher, de recatadas
Marolas, ventos suaves e doces trejeitos de abraçar,
Com horizontes sem presságios para se respirar.
Uma prainha violentada à sombra de castanheiras
E figueiras sobrenaturais trazidas de muito alem,
Em barcos antigos que vislumbrei sem ver e sem tocar.
Uma prainha da qual guardei o som, o marulhar,
E provei o sal colhendo budigões, pescando sardas, peroás.
Os antigos falavam de um ancoradouro desaparecido,
Um ícone feito de pedras negras e vontades férreas
Onde resplendia a vida deixada em terra firme,
Não nos escolhos para se sublimar, mas no aconchego do lar;
Não nos grotões do medo, mas nos momentos de alegria
Que efêmeros escorriam das moendas e alambiques;
Era a vila, em essência, um porto sem adeuses,
Ora burburinhando sagas, ora pachorrenta
Sob as vistas do paternal e ascético mosteiro.
Os pecados, o convento, se não consentia, perdoava
E só se alvoroçava nas jornadas em que aportavam
Os possessos a serem exorcizados em plena luz do dia.
E porque os demônios existiam, urros hediondos se ouviam
Ecoando na mata e nas casas devotas que espreitavam
Até que as legiões deixavam os umbrais e todos diziam
Que por força da fé e dos sagrados rituais não voltariam...
Mas voltaram...O convento recende ainda santidade,
Parece estar em paz, já não pratica vetustos exorcismos,
Mas visto de longe, tem agora álgido e cortante olhar
Divisando o mal que se esconde nos semblantes.
A prainha foi esquecida, restando o cimento, a dura certeza
De que muito mais se perdeu alem de vãs reminiscências.
A identidade soçobrou, dizem que por avoengas maldições...
Não é verdade, nada explica a malsã realidade, o que se vê,
Senão ambições e ódios ardendo ainda em muitas consciências.
Nos rochedos, incrustam-se desesperanças.Some a ave migrante
Do sonho.Muitos agora sobrenadam a verdade
Como peixes doentios mordiscando as praias imundas.
Até os impunes que se esconderam nas penumbras da lei
Sabem que o convento jamais esquecerá seus crimes.
Outros, arrogantes, ilusoriamente ainda triunfantes,
Martelam meias verdade e falácias nas musiquetas enganosas
Enquanto não chega o desfecho de não mais poderem sair às ruas
E fazer sexo mastigando siris azuis e guaiamus vermelhos
Límpidos de qualquer perversidade ou sujidade.
Seus nomes inscrever-se-ão nos claustros para a fogueira justa.
Por hora, não poderão ignorar o que salgado está na alma
E no olhar da efígie que vigia na penedia em nome das consciências
Assentada sobre ruínas invisíveis e crenças renitentes.
Os demônios da violência... Estes pululam no cotidiano. Existem sim,
Mas o convento vela por ti, Vila Velha, pelos isentos de culpa e por mim
Que mergulho em imagens fugidias e indignações tardias.
terça-feira, 8 de julho de 2008
Assinar:
Postagens (Atom)