terça-feira, 8 de julho de 2008

UMA PRAINHA EM VILA VELHA...

Ontem havia uma prainha aqui, uma nesga do passado
Mirando lendas ancestrais de Vila Velha.Um sigelo mar
Possível, crível, uma enseada mulher, de recatadas
Marolas, ventos suaves e doces trejeitos de abraçar,
Com horizontes sem presságios para se respirar.
Uma prainha violentada à sombra de castanheiras
E figueiras sobrenaturais trazidas de muito alem,
Em barcos antigos que vislumbrei sem ver e sem tocar.
Uma prainha da qual guardei o som, o marulhar,
E provei o sal colhendo budigões, pescando sardas, peroás.

Os antigos falavam de um ancoradouro desaparecido,
Um ícone feito de pedras negras e vontades férreas
Onde resplendia a vida deixada em terra firme,
Não nos escolhos para se sublimar, mas no aconchego do lar;
Não nos grotões do medo, mas nos momentos de alegria
Que efêmeros escorriam das moendas e alambiques;
Era a vila, em essência, um porto sem adeuses,
Ora burburinhando sagas, ora pachorrenta
Sob as vistas do paternal e ascético mosteiro.
Os pecados, o convento, se não consentia, perdoava
E só se alvoroçava nas jornadas em que aportavam
Os possessos a serem exorcizados em plena luz do dia.
E porque os demônios existiam, urros hediondos se ouviam
Ecoando na mata e nas casas devotas que espreitavam
Até que as legiões deixavam os umbrais e todos diziam
Que por força da fé e dos sagrados rituais não voltariam...


Mas voltaram...O convento recende ainda santidade,
Parece estar em paz, já não pratica vetustos exorcismos,
Mas visto de longe, tem agora álgido e cortante olhar
Divisando o mal que se esconde nos semblantes.
A prainha foi esquecida, restando o cimento, a dura certeza
De que muito mais se perdeu alem de vãs reminiscências.
A identidade soçobrou, dizem que por avoengas maldições...
Não é verdade, nada explica a malsã realidade, o que se vê,
Senão ambições e ódios ardendo ainda em muitas consciências.
Nos rochedos, incrustam-se desesperanças.Some a ave migrante
Do sonho.Muitos agora sobrenadam a verdade
Como peixes doentios mordiscando as praias imundas.
Até os impunes que se esconderam nas penumbras da lei
Sabem que o convento jamais esquecerá seus crimes.
Outros, arrogantes, ilusoriamente ainda triunfantes,
Martelam meias verdade e falácias nas musiquetas enganosas
Enquanto não chega o desfecho de não mais poderem sair às ruas
E fazer sexo mastigando siris azuis e guaiamus vermelhos
Límpidos de qualquer perversidade ou sujidade.
Seus nomes inscrever-se-ão nos claustros para a fogueira justa.
Por hora, não poderão ignorar o que salgado está na alma
E no olhar da efígie que vigia na penedia em nome das consciências
Assentada sobre ruínas invisíveis e crenças renitentes.
Os demônios da violência... Estes pululam no cotidiano. Existem sim,
Mas o convento vela por ti, Vila Velha, pelos isentos de culpa e por mim
Que mergulho em imagens fugidias e indignações tardias.