sábado, 16 de fevereiro de 2008

QUEM TEM MEDO?

Alguns nomes magistralmente escolhidos para obras de grande expressividade do teatro e do cinema são recorrentes em meu pensamento por externarem violência, complexos, monstruosidades comportamentais, carências, culpas ou gritos políticos presos nas gargantas.Em um tempo de tantas aberrações poderiam estar adormecidos na memória.Mas não estão, voltam à baila recorrentemente.Coadunam-se com a realidade.
O mais contundente parece ser: “Dois Perdidos Numa Noite Suja”, isto é, eu e meu computador, mergulhados na asfixiante cena política.Resume o que sinto nesta noite destrambelhada, imunda, em que os contribuintes roncam ou estão todos mortos.O polvo de cinqüenta milhões de braços (não disse povo) também dorme passivo, sem pesadelos, no processo repetitivo que esconde sanguessugas, mensalões e agora festivos e imorais cartões corporativos utilizados em uma farra absurdamente desproporcional às agruras do cidadão comum.Espera o gigantesco molusco, suspirando, a próxima eleição...
De todos os fatos recentes, um se arvora em paradigma para se compreender a conjuntura.Esta inexplicável perda de dados estratégicos da mega empresa estatal poderosíssima que agora contabiliza também reservas gigantescas que poderão ranquear nosso país entre os oito maiores produtores do planeta.Por mais ingênuo que seja o leitor, não há de considerar o acontecimento uma ocorrência meramente policial, ainda que nos digam: Olha, temos as cópias, etc e tal.Acaso não pensaram em criptografar as informações estratégicas?Quem ou que concorrentes farão uso dos dados? A que preço para o país?
Vejo-me adolescente nas ruas e praças portando bandeirinhas e bradando com sinceridade nacionalista: O petróleo é nosso, viva a Petrobrás!Mais ou menos nesta época, lá pelos cinqüentas, passava um filme deprimente intitulado “Quem tem medo de Virginia Woolf” que me impressionou para o resto da vida.Virginia Woolf foi uma escritora que abalou as estruturas mentais na primeira metade do século XX, para o bem e para o mal.
Defendi até esta altura da vida teses intocáveis como o monopólio estatal do petróleo e o acatamento quase sagrado da Petrobrás como condutora da prerrogativa constitucional em proveito do Brasil e de sua sociedade.Já não sei se ainda penso assim.
Parafraseando o mencionado filme ao longo do qual muitos podres da família americana e de suas instituições mais prestigiosas na época vão aos pouco surgindo em atormentados diálogos após uma festa na qual dois casais abusam do álcool, perguntaria: quem tem medo da privatização da Petrobrás?
Como pode um acervo de dados estratégicos da reserva Tupi sumir assim sem mais nem menos, ainda mais transportados num container (!), com o grave risco de favorecimento dos concorrentes internacionais?Nestas circunstâncias já não parece ter muita importância saber quem ou que quadrilha praticou o crime.Importa, isto sim, quantificar as perdas para o Brasil e responsabilizar, refazer, remodelar, revolucionar as estruturas internas de uma empresa que não responde apenas aos seus funcionários ou acionistas, mas acima de tudo, aos mais altos interesses nacionais.Uma empresa tão poderosa que pode ter extrapolado todos os controles da sociedade, incorrendo em equívocos primários aqui e alhures.
Moro em uma cidade de porte médio onde tem uma ponte metálica terminada em 1905.A população esqueceu o nome do político que a inaugurou e a chama carinhosamente de “Ponte Velha”, considerando a estrutura férrea um dos símbolos da cidade, ultimamente expropriado por marqueteiros a serviço da administração municipal.Ah! Tem também um pequeno e romântico jornal com o mesmo nome...
Nesta senda de idéias, concluindo o desabafo, me vem à mente, por associação, o nome de outra peça de teatro famosa: “Panorama Visto da Ponte”.O enredo nada tem a ver com o que vou dizer, mas o título é sugestivo para o que vou fazer: sair pela noite, agora só, para esperar a manhã romper vista da ponte, antes que minha própria imagem desapareça na fuligem da Siderúrgica Votorantin que, para os que não sabem, está chegando célere.
Afora a resplendente paisagem de minha terra, enquanto possível, nada poderei ver de promissor nem descortinarei nenhuma esperança nos horizontes que abrigam o futuro.Este mesmo que está sendo gerado nesta noite suja, ainda ao alcance de nossas consciências entorpecidas.

terça-feira, 5 de fevereiro de 2008

TRÁGICAS EVIDÊNCIAS

(SOBRE O DESAPARECIMENTO DE UM EMPRESÁRIO)

Não se diga que as buscas para encontrar destroços do helicóptero desaparecido entre Angra dos Reis e São José dos Campos em 24 de janeiro cessaram em decorrência do clima de carnaval. Também não foi o mau tempo... As atividades para resgatar até mesmo despojos humanos do Engenheiro João Verdi de Carvalho Leite, fundador e Presidente da Avibras Aeroespacial e de sua esposa foram suspensas já a algum tempo por não restarem esperanças de encontrá-los com vida. Esta é uma óbvia e trágica constatação.Carente de informações oficiais, rendo-me as evidências e elevo meus pensamentos: Que Deus os tenha.

As diferentes mídias também silenciaram sobre o assunto antes do final de janeiro, fato que me conduziu naturalmente aos sites de pesquisa. O que lá encontrei não foi muito lisonjeiro para o proverbial espírito de tolerância e passividade do brasileiro comum.Por uma razão muito simples:penso,em face deste e de outros acontecimentos, que não é lícito a ninguem cogitar aprioristicamente de teorias conspiratórias como esta, só para citar um exemplo, que agora insufla ânimos dando conta de pretenso assassinato de Jango Goulart a mando de um governante.Até porque o acusador foi preso recentemente por ter cometido crimes diversos.

Longe de mim querer comparar Jango ao Engenheiro Verdi. Entendo que ambos cumpriram importantes papeis, para o bem ou para o mal, na trajetória singular que o pais vem percorrendo em busca da estabilidade política, de um lado, e o crescimento econômico, de outro.O primeiro fora ícone das esquerdas, alijado do poder pelos militares em 1964, tendo sido banido do país.O outro merecera bastante apreço destes mesmos militares e de milhares de trabalhadores por ter sido idealizador,na área empresarial civil, junto a outros, de um importante segmento da indústria voltado para a Defesa Nacional, setor este desprestigiado e deixado a mingua posteriormente por falta de visão de uns poucos ou, quem sabe, por equivocados desígnios políticos.Na segunda metade dos oitentas suas organizações se situavam no topo entre as maiores empresas de exportação.

O presumível passamento deste grande brasileiro, o Engenheiro Verdi, e de sua digníssima esposa, alem de pungente é também amargamente irônico. Na verdade, o empresário levantou vôo para a morte nas vésperas do embarque para a França e para a Rússia da comitiva governamental que se propunha a iniciar o soerguimento dos meios desta negligenciada Defesa Nacional, pela qual tanto labutou. Nos últimos anos tentava reconduzir a Avibras a um novo e expressivo lugar entre as empresas nacionais de exportação.

Fosse por legítimo interesse empresarial, participe de várias negociações com a Rússia por mais de dez anos em muitos projetos, ultimamente reavivados, fosse pelo fato de ser competentíssimo técnico detentor de tecnologias próprias, não poderia, a exemplo de outros empresários do ramo ainda atuantes, ser alijado de eventual participação na mencionada missão comercial, caso prevalecesse apenas o bom senso.Não é plausivel pensar que tal fato tenha ocorrido.

Trabalhei com ele durante um breve período. Não o vejo há quase vinte anos, mas fico pensando:Teria sido chamado as pressas para externar algum esclarecimento, opinião ou consultoria?Nunca se saberá.Confirmo apenas que era muito bom piloto, consciente de riscos, dominando variados tipos de aeronaves. Tinha plena consciência dos inúmeros acidentes aéreos que vitimam incautos ou afoitos naquelas rotas aéreas que demandam o Vale do Paraíba vindas do litoral, quando variam bruscamente as condições meteorológicas.Quem não se lembra da tragédia que vitimou o Dr. Ulisses, familiares e amigos?Parece que algo de muito importante moveu a roda do destino naquele fatídico entardecer fazendo-o viajar.

Ora, estas são meras suposições ou talvez exercícios de raciocínio por vias indiretas para ressaltar um fato que também acarretou inúmeras pequenas tragédias familiares decorrentes do desemprego, quando empresas de armamento fecharam as portas, alem de pesado ônus às forças armadas brasileiras, a seguir explicitado. Se nada de concreto resultar destas considerações, talvez sirvam de propósito para uma oração pelos mortos, alem de trazer às consciências um fato ocorrido no início dos noventas, trágico também, mas não tão evidente, que muito custou e custará ao nosso país:o deliberado esvaziamento da indústria nacional de meios de defesa, processo autofágico até hoje pouco transparente para a sociedade brasileira.