quinta-feira, 13 de março de 2008

O NOTICIÁRIO

Estaria a mente do observador, de antemão declarado isento e sem filiação partidária, envenenada por tantas notícias sombrias?Por ironia, tais constatações estão superpostas a acontecimentos auspiciosos no momento em que o Brasil reencontra seu destino: de um lado, a economia parece livrar-se de carrascais plantados equivocadamente, antes, pelo próprio partido atualmente no poder; par e passo, o Estado exaure-se em contradições estarrecedoras, não ambulantes, como diria o primeiro mandatário, mas no mínimo sazonais, inegavelmente atreladas ao sistema político-eleitoral vigente.
O embrulho, que se agiganta, não parece depender, hoje, deste ou daquele pensamento teórico ou ideologia dominante, eis que todos se dizem de esquerda ou quase isto nas eleições.Talvez encontre fulcro, isto sim, no partido político vitorioso que no afã de conquistar o poder fez concessões descabidas a radicalismos e sectarismos que não se coadunam, de forma alguma, com a história deste grandioso país.
Vem a baila, então, o ordenamento jurídico do país.Vigora?A lei está acima das vontades e interesses individuais ou de grupos, facções, prepostos do poder e partidos políticos?A propriedade privada subsiste? O supremo interesse público tem sido preservado?A democracia almejada é isto que se vê no cotidiano, com a prevalência de esquemas escusos, corrupção desenfreada, violência campeando de norte a sul? O saneamento básico, a educação e a saúde vão bem, apesar da escorchante carga tributária?
Estas e muitas outras questões rondam as consciências, mas, forçoso é reconhecer, não terão qualquer importância nesta e nas próximas eleições enquanto as bolsas de cunho social, emergenciais, se entronizam no arbítrio de milhões de pobres e famélicos eleitores que bem as merecem, mas que lamentavelmente perderam a capacidade de discernimento quanto o futuro próprio, de seus descendentes e do próprio país.
Neste mês exacerbaram-se farpas entre representantes supremos dos poderes da República.O fato já não causa perplexidades em ninguém, muito menos aos contendores na arena aparentemente tranquila da decantada democracia brasileira.Mas o noticiário desta noite deveria tirar o sono de estadistas, se é que ainda exista algum desperto neste instante emblemático em que se delineia mais uma vez o caos institucional.
A televisão mostrou! De um lado, grupos sociais de inspiração petista, egressos dos tempos do vale tudo nas lutas pelo poder, bloqueando entradas dos canteiros de obras de uma grande hidroelétrica do PAC, indispensável aos desígnios governamentais, ou melhor, do PT no poder constitucional.A usina de energia mostra-se como um dos mais festejados rebentos do parto de crescimento idealizado por este mesmo PT e sua estrela maior nestes dias, a Dona Dilma, auto denominada mãe do controverso programa.Do outro lado das porteiras, nada mais, nada menos, que a Força Nacional de Segurança, criatura também do PT, armada até os dentes, emudecida, imobilizada, montando guarda e fazendo figuração.
No mais, obras paradas, tudo em absoluto silêncio governamental, ausência abismal dos políticos do PT e dos dirigentes do consócio empresarial.
Uma única voz, a de um infeliz mestre de obras, operário, cidadão, contribuinte, muito provavelmente pai de família distante do lar, trabalhando duro por si, pelos seus e pelo Brasil, talvez o responsável de plantão já que seu superior era mantido como refém, lamentava o marasmo, o prejuízo para a sociedade e, porque não dizer, clamando pela atenção dos poderosos quanto ao próprio medo de ser vitimado pelos festejados invasores.




domingo, 9 de março de 2008

A Guerra Que Não Houve

Sem novidades no Front sul americano, felizmente...Aos poucos os soldados perplexos voltam para casa e os presidentes envolvidos retomam suas agendas, nas quais, queiram ou não, está presente a cocaína, impregnadas também de gás e lambuzadas de petróleo.O mais fraco na encenação grotesca, aparente vítima, ainda pratica discursos inflamados, mas sabe que tudo é inútil.Parece compreender que meia dúzia de narco-guerrilheiros não justificariam um conflito envolvendo o Equador e seu admirável povo, apesar de ter sido realmente condenável a incursão em seu território posta em prática pela Colômbia.
Relações diplomáticas são restabelecidas timidamente nestes dias e não poderia ser de outra forma, por mais que um peru de fora, como se diz no Brasil, tentasse insuflar os ânimos.Os mandatários supremos, ainda ressentidos, parecem tomar juízo e retomar o diálogo, deixando de lado asnices, fanfarronices e desatinos bestiais.
Os episódio tem muitas vertentes, até históricas, mas enrosca-se inevitavelmente em fatos relativamente recentes, como estas Farc descambando para crimes hediondos como o sequestro, o assassinato político e a venda internacional de drogas.Configuraria estupidez inominável envolver todo o subcontinente para financia-las, dar-lhes guarida ou utiliza-las como massa de manobra para incomodar o gigante ao norte.Seria o mesmo que trocar sangue por um zumbido de mosca, envolvendo o Brasil e a Argentina, dois aliados ou cooptados de Chaves.
Este senhor, protagonista mais açodado no momento crucial, dito peru de fora, não agredido por enquanto, em vez de amenizar a fervura, pelo contrário, tudo fez para exacerba-la, fermentando apenas seus tresloucados e ambiciosos desideratos.A coisa poderia ter desdobramentos inimagináveis, eis que o referido personagem tem financiado campanhas eleitorais em outros países com dinheiro do petróleo, patrimonio do povo venezuelano.
Assemelha-se, o discípulo de Fidel, mal comparando, a verdadeiro estopim capaz de desestabilizar esta parte do planeta, eis que é também cliente contumaz no mercado internacional de armas e não demonstra apreço pelas instituições mais caras ao mundo livre.
Não tem contradições existenciais ambulantes, não tem "movimentos" aliados invadindo propriedades impunemente, não tem ONG criando reservas gigantescas em seus limites com o beneplácito dos poderes, não inventou mensalões para obter apoio político, não abusa de cartões corporativos, não paga indenizações a militantes das inúmeras facções de esquerda que atuaram na Venezuela, não tem fatias de seu território dominadas por bandidos e muito menos traficantes guerrilheiros, embora aceite em seus domínios as FARC oriundas da Colômbia, não tem oposição e sufoca a imprensa, não tem, apenas aparentemente, conflitos raciais importantes como estes que se esboçam, conduzidos de cima para baixo e que podem levar nosso país a um impasse.
Sobranceiro a tudo isto, quer apenas perpetuar-se no poder, se possível por mais tempo que seu guru de Cuba.O aparato bélico que vem engendrando, ele bem sabe, jamais preocupará seu desafeto poderoso, mas intimidará os democratas de seu pais e da América do Sul.
Nada de novo ao sul do Rio Grande...Longe deste obscuro escriba querer botar mais lenha na fogueira, mas seria ingenuidade pensar que a paz abandona as trincheiras neste momento graças a esforços diplomáticos deste ou daquele ator cucaracha.A cena aquieta-se por ora, não por ações de "A" ou "B", senão para evitar, para alguns, perdas maiores, eleitorais ou criminais, em futuro próximo.Ou, se nada disto for verdade, ao menos para merecer ainda algum respeito, improvável, da opinião pública mundial.Tratou-se de uma comédia de erros, envolvendo assuntos sérios como soberania, ao lado de projetos pessoais autoritários, ditatoriais, e terrorismo.
Encerro descrente como sempre.Esta trégua é suspeita.Não tenham dúvidas, meus caros amigos: muito mais coisas naqueles discos rígidos apreendidos do que possa imaginar nossa vã filosofia, de outra forma os aloprados do cenário tupiniquim não silenciariam.Tem muita gente com as barbas de molho por aqui.Precisamos saber.

segunda-feira, 3 de março de 2008

MEU NETO



Sempre imaginei que quando nascesse meu primeiro neto me visse obrigado a produzir obra de grande envergadura, monumental, diferente das amenidades que espalho ou de ocasionais polêmicas com desafetos ácidos que transitam dia e noite nesta ilusória comunidade virtual da qual participo com orgulho.
Nascido em um lar típico da classe média, o João Pedro completa uma semana.Recebo fotografias, muitas fotografias...Vejo-me incapaz de dizer mais do que a seguir se vê.Observo seu semblante, seu tipo, sua condição social... Observo-o demoradamente com atenção e emoção.Nos próximos dias quero toca-lo, quero abraça-lo com carinho no instante de vida em que os últimos remanescentes antigos de minha família desaparecem um após o outro.
Fixo-me em sua tez:é branco, apesar de sua avó materna mostrar traços inequívocos do sangue indígena que alicerçou um dos pilares de nossa nacionalidade.Seus ascendentes paternos remontam aos portugueses que vieram inventar o Brasil, talvez aos árabes que um dia dominaram a península ibérica, enfim toda esta gente que soube olhar muito alem dos horizontes imediatos, no espaço e no tempo, abrigando sentimentos e aspirações grandiosas como a saga de buscar o levante pelo poente.Mas tudo isto parece ser letra morta nos dias que correm.
No que me concerne, digo que o menino ascendeu, em relação a mim, um degrau na escala de mobilidade social.O mesmo fizera eu, quanto ao meu pobre pai, operário italiano que veio para o Brasil após a primeira guerra mundial.Minha tradição familiar remonta aos ‘Bergamaschi’, quanto ao linguajar, mas viveram meus antepassados no extremo norte da Itália.
A propósito, diria que a belíssima musica “Claire de lune”, de Debussy, é parte da imortal Suite Bergamaschi deste genial compositor francês que tanto inspirou Tom Jobim e outros músicos brasileiros.Posso fazer tais digressões, pois falo de minorias que jamais tiveram qualquer importância política nem lá, nem aqui, ou de constatações históricas mais do que óbvias.Longe de minhas intenções querer praticar nas entrelinhas quaisquer resquícios de racismos.Mas o menino é branco.Inelutavelmente branco e classe média.
Quer isto dizer, ou trazer a tona, uma preocupação.Parafraseando, não sei se devidamente, um desabafo do eminente jurista Ives Granda Martins em artigo recente publicado na imprensa, parece que os governantes e os legisladores, de uns tempos para cá, esqueceram os brancos, que são tratados desigualmente pelo simples fato de serem brancos.Acrescentaria apenas que esqueceram também a classe média, obrigada tão somente a pagar substancial parcela da conta no saco sem fundos onde se escondem o bem e o mal, mais o segundo que o primeiro.
Vá lá, João Pedro, vá estudar, produzir e pagar impostos.Saiba meu querido neto: ainda que participando de lutas políticas justas em prol da humanidade, jamais receberá estas indenizações pagas hoje a sectarios de uma ideologia em desuso no mundo, onus absurdo que recai brutalmente sobre o contribuinte brasileiro.
Você nunca será partícipe de quinhões do território repartidos entre poucos, sob inspiração e controle de ONG internacionais com sedes em países ricos da Europa e da América do Norte.
Você ficará de fora dessas bolsas que proliferam e de todas as benesses eleitorais.Você não será convidado para o botim dos cartões corporativos, mensalões, espetáculos de crescimento, o biodisel, o gás, as reservas de petróleo do pré-sal, o álcool, a farra do poder. Mas vai pagar a conta.Não tenha qualquer duvida...
Ah!Acabo de vislumbrar uns traços de indignação em seu semblante dorminhoco...